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As 3 premissas para uma prática meditativa profunda

as 3 premissas para uma prática meditativa profunda (2)

As 3 premissas para uma prática meditativa profunda

As 3 premissas para uma prática meditativa profunda

Tempo de leitura aprox: 5 minutos

Para experienciares a dimensão de ti que foi, é e sempre será livre através desta prática silenciosa necessitas de abraçar 3 atitudes ou posturas importantes: Permaneceres totalmente imóvel, Relaxares profundamente e Prestares atenção!

Comecemos pela primeira:

A importância de permaneceres totalmente imóvel!

Metaforicamente falando, esta atitude de permaneceres completamente imóvel mostra-nos que não existe nada dentro ou fora de ti que te vai tirar do teu compromisso de te descobrires e de estares em contato com a parte de ti que é, foi e será sempre livre! Cada vez que decidires dedicar algum tempo a estares apenas e só contigo de forma consciente, a tua mente de macaco vai começar a dar sinais da sua existência. Tudo será motivo para te distrair, tudo será motivo para captar a tua atenção num ponto específico de forma a que alimentes as sensações, sentimentos ou emoções vinculadas ao conteúdo que esse macaquinho te vai mostrar.

Sem qualquer pretensão de te condicionar, sinto-me na obrigação de te mostrar algumas das coisas que a tua mente de macaco vai utilizar para te fazer desistir desse compromisso sério que fizeste contigo de forma a que possas estar cada vez mais consciente dos seus movimentos e assim voltares à tua postura de desinteresse a cada momento que geres um vínculo ou um interesse à experiência que te é colocada à frente! A cada vez que firmes o compromisso de ficar imóvel e em silêncio, a tua mente vai mostrar-te as dores físicas que sentes nos joelhos, nas pernas, nas costas, na cabeça ou em qualquer lado; vai mostrar-te o quão desconfortável pode ser uma mosca ou um mosquito no espaço onde estás; o quão irritante pode ser a música do vizinho ou o barulho do trânsito na rua. Vão aparecer feridas antigas que ainda não ultrapassaste, pensamentos obsessivos sobre ti ou sobre alguém à tua volta e até episódios da infância ou da adolescência que já nem sequer te recordavas!

Também é comum mostrar-te uma ideia genial de algo que deves fazer a seguir como se fosse a melhor ideia do mundo, algo super importante que te tenhas esquecido de fazer antes de te sentares ou deitares a meditar ou até um simples questionamento sobre a estupidez que estás a fazer ao estares ali sem fazer nada quando só se evolui na vida fazendo coisas benéficas por ti e para ti! Não importa o que acontece no momento em que decides ser fiel ao teu contrato meditativo, mesmo que o mundo pareça estar a ruir ou a seduzir-te, tu não te vais mexer porque simplesmente queres ser livre de todo o movimento interno e externo a ti.

Pode parecer estranho permanecer indiferente às inspirações ou aos alertas que recebemos nestes momentos que é costume chamarmos de pausas, mas a ideia é mesmo essa: fazermos uma pausa do nosso movimento inconsciente e compulsivo do nosso dia-a-dia! Nesse teu estado “normal”, vives na busca desenfreada por sensações agradáveis e prazerosas e em identificação completa com as tuas indomáveis e selvagens emoções que têm por base os teus medos e desejos pessoais – aquilo a que muitos chamam de ego. Não apenas tu mas a maior parte de nós está constantemente à procura de modificar a sua realidade, procurando pela satisfação dos seus desejos e tentando fugir dos seus medos. É isso que nos faz sentir pouco seguros, é isso que nos faz sentir perdidos e desorientados. Essa é parte da programação básica que cada vez mais se enraíza nas profundezas do nosso ADN e por isso é importante meditarmos para voltarmos a reverter esse registo para que o normal daqui a uns tempos seja a liberdade ao invés desta prisão dos dias de hoje. 

Não te moveres é a melhor metáfora para a liberdade porque aquele que se ilumina ou ascende, dependendo das palavras que gostas de utilizar para embelezar o teu percurso espiritual, nunca se move nem se afasta do que é interior e realmente importante. Uma dica importante que te posso dar para que tenhas esta atitude de permanecer imóvel sejam quais forem as circunstâncias que estejas a experienciar é uma das grandes verdades sobre as quais o Budismo se baseia: nada existe para sempre!

A segunda atitude ou postura importante que deves adotar nas tuas práticas é:

Relaxares profundamente!

Erradamente muitos buscam a meditação para se aliviarem da tensão do seu dia-a-dia ou das suas queimaduras pessoais. Muitas dessas pessoas contentam-se com exercícios simples de respiração profunda, exercícios de foco e concentração na respiração ou em objetos externos ou até nas conhecidas “Meditações guiadas” que, na minha limitada e medíocre visão das coisas, nada mais é que uma dinâmica de visualização e que pouco ou nada têm a ver com a meditação em si.

A postura de estares em relaxamento profundo não é uma consequência da meditação mas sim um importante ponto de partida!  Abraçares esta postura significa que nada te está a incomodar ou a prender a tua atenção e isso permite-te que consigas aceitar tudo como tem de ser, como te é apresentado, como é. Para relaxares necessitas de aceitar a tua experiência momentânea seja ela como for: agradável ou desagradável, prazerosa ou dolorosa, repleta de sensações ou mesmo se parecer que nada está a acontecer – a tal “perda de tempo” que referi à pouco onde a tua mente de macaco te pode tentar convencer como fosse real.

Deixar tudo ser como tem de ser significa que não queres agarrar, modificar ou controlar a tua experiência. Lembra-te que não há nada que possas fazer para experienciares a parte de ti que foi, é e sempre será livre da mesma forma que a natureza nada tem de fazer para que a água do rio chegue até ao mar. A natureza permite que a água tenha a experiência que tem de ter até formar um rio e que tome o percurso que necessita de tomar até desaguar no mar! Ao saberes disto tudo se torna mais fácil e simples pois já sabes o que fazer quando te perderes em algo agradável ou desagradável: aceitar que a tua experiência esteja a acontecer dessa forma. É importante salvaguardar que não existe problema algum se te perderes no conteúdo da tua mente. Parece contraditório, mas porque afirmo isto?

Ok… ao perderes-te nesse conteúdo ou nessas distrações mentais, na verdade não estás a meditar mas se entrares em conflito contigo pelo fato de te teres permitido perder nesse processo estás a criar mais complicações e mais distanciamento da parte de ti que foi, é e sempre será livre. Compreendes onde quero chegar? Imagina que estás a viajar por uma sensação agradável ou desagradável na tua mente e por isso experiencias um processo de identificação com essa vivência e, consequentemente, não consegues relaxar profundamente e ser Livre nesse momento. De que adianta frustrares ou stressares quando perceberes que te perdeste momentaneamente? De que forma te liberta sentires raiva ou entrares em modo de competição contigo quando enxergas isso? Percebes agora? Aceita todo o teu processo ao invés de criares mais barreiras e tensões!

Quando te permites deixar que a experiência seja como tiver de ser, acontece em ti uma libertação bastante profunda de algo que te provoca tanta tensão diariamente: a estranha convicção de que algo está incrivelmente errado contigo ou com a vida em si. Permitires dissolver esta tensão em ti, ainda que seja por um tempo determinado, fará com que descubras que a liberdade é real e que é algo que esteve, está e sempre estará dentro de ti. Assim que aceites a tua experiência, seja ela qual for, permitirás que o conteúdo da tua mente perca força e vá abrandando aos poucos e também por isso me faz sentido ver este processo inicial da meditação como um “treino”, mesmo fomentando o paradoxo que a meditação é o treino de aprendermos a não fazer rigorosamente nada. Persiste dia após dia e nunca desistas porque cada experiência é única. Permite que tudo seja como tiver de ser porque, uma vez mais, nada é permanente e tudo muda constantemente.

Depois das duas posturas que sugeri atrás trago-te a terceira e última postura que deves adotar para um a prática meditativa intensa e profundamente transformadora:

Prestares atenção!

O facto de ser necessário “prestares atenção” é uma metáfora para te explicar que não deves ter nenhuma relação com o aparecimento de sensações, emoções, pensamentos ou sentimentos agradáveis ou desagradáveis e que deves simplesmente observá-los. Se escolheres não te identificares com o que vai surgindo no teu corpo e mente, mais cedo ou mais tarde, vais experienciar o Ser livre que habita em ti mas para isso necessitas de cultivar uma postura desinteressadamente atenta e desperta! Se não a abraçares, vais adormecer nesse processo. Tenho recebido alguns comentários de alguns participantes dos Workshops presenciais que tenho feito a dizerem-me que não conseguem meditar porque se deitam ou porque o fazem no horário antes de irem dormir mas que entram no sono de forma muito mais facilitada. Uma parte de mim sentia-se feliz porque muitas destas pessoas tinham alguns problemas de insónias mas automaticamente aparecia uma sensação de frustração porque, na verdade, essas pessoas não estavam a dedicar-se ao que se tinham proposto, não estavam a meditar. Nesses casos costumo dizer-lhes em tom de brincadeira e provocação: “contentas-te com pouco”.

Esta postura de atenção plena costuma ser descartada principalmente pelas pessoas extremamente cansadas ou que buscam efeitos imediatos ou o alívio da tensão do dia-a-dia na prática meditativa. Entrar em sono profundo de forma tranquila já é uma conquista, um ponto positivo, uma satisfação. Mas meditar nada tem a ver com conquistar ou obter experiências ou sensações agradáveis!

Ao abraçares esta postura de atenção plena juntamente com as duas outras que aprofundei atrás, a tua Consciência tornar-se-á tão vasta e expandida que estarás presente perante tudo o que acontece dentro e fora de ti sem te apegares a nada em concreto. Ao mesmo tempo, também darás conta da tua postura de liberdade perante tudo o que estas a sentir, viver e absorver. 

É esta presença bem enraizada que faz com que um ser que pareça incrivelmente acordado, desperto, atento, relaxado e despreocupado: um insignificante observador lúcido das manifestações dos impulsos do seu aparentemente interessante Eu individual.

E assim me despeço de mais um artigo! Espero que tenhas gostado e sei que a partir de
agora já sabes o que sinto ser necessário para começares a dedicar tempo para
ti e para esta tua exploração! 

Espero-te bem,

João Wandschneider

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