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A traição é tradição!

By Junho 22, 2017 4 Comments

Algures na história a humanidade “desligou-se” de si própria. Uns chamam-lhe Inverno Galático, outros Tempos de Escuridão.

Desde então, o medo ganhou vida própria e sobrepôs-se ao Amor; a desconfiança virou ponto de partida; a omissão passou a ser considerada um trunfo e algo a proteger; o eu tornou-se mais importante que o Todo; a mentira bem sucedida converteu-se num elixir de adrenalina que nos dá uma falsa sensação de vivacidade, plenitude e preenchimento.

O paradigma inverteu-se e passamos a viver de fora para dentro como se o que estivesse fora existisse para ser usado por nós mediante os nossos interesses, vontades, necessidades e carências. Não sei quando foi, como foi nem “quem” foi que provocou essa mudança na Consciência mas, desde então, as coisas têm-se tornado cada vez mais pesadas.

Nos dias de hoje, apesar de me entristecer, não estranho o facto da comida ser maioritariamente artificial, da medicina descartar a natureza como cura, dos relacionamentos serem superficiais, da economia ser um jogo viciado de poder entre corporações, da educação ser um inimigo da própria espécie, da violência ser gratuita e do entretenimento ser um sedativo disponível (e necessário à primeira vista) para qualquer um, a qualquer momento, em qualquer lugar.

A traição é tradição?

A traição é tão antiga quanto o momento da separação que tivemos connosco próprios e ela existe de duas formas: traindo-me a mim e traindo o próximo. Deixamos de conhecer o próximo porque não nos conhecemos a nós, deixamos de confiar nos outros porque não confiamos em nós, esperamos do outro aquilo que não conseguimos obter de nós próprios, reprimimos a nossa inocência mental e emocional em prol de uma tentativa forçada para que “as coisas dêm certo”, enfim… São inúmeros os porquês.

Quando decidi escrever sobre isto estava a experienciar (bem de perto) uma situação de traição, daquelas fortes e traumatizantes. O facto de não ter sido diretamente comigo possibilitou a observação da situação desde uma posição neutra. Na verdade não foi neutra pois coloquei-me do lado da “ferida”.

Foi curioso porque a ferida manifestou-se dos dois lados da balança: o que traíu e o que foi traído!

O desespero constante num olhar vazio e confuso, a dificuldade em organizar e planear algo que já era conhecido, um loop de raiva, tristeza e medo “em crescendo” e uma vulnerabilidade de alguém que perdeu a fé no próximo foi o que observei de perto nos últimos dias enquanto estive próximo da pessoa que foi surpreendida com a desilusão (desconstrução de ilusões) daquele relacionamento.

Não tive a oportunidade de estar muito tempo perto da ferida que se abriu na pessoa que traiu mas logo reconheci o impacto que a sua atitude teve na sua vida. A sua relação consigo, com a outra pessoa, com familiares de ambos e com amigos em comum sofreram pequenas e grandes transformações. Os desafios começaram logo após o choque da notícia que cada um foi recebendo com o passar dos dias e, essa pessoa, arregassou as mangas e decidiu começar a enfrentar cada pessoa importante e relevante na sua vida que tinha ficado sensível ao acontecimento de alguma forma.

Relacionamentos imaturos mas conscientes

A ideia de se poder crescer intimamente ligado a alguém só é possível se for sem máscaras, com vulnerabilidade e com a necessária abertura. Incentivar qualquer pessoa a começar a agir sem filtros, de um dia para o outro, é algo fantasioso mas o que quis dizer atrás foi que cada casal deve ir explorando o relacionamento à medida que cada um se transforma. Existem medos, traumas, fobias e crenças que limitam os relacionamentos mas existem para que cada um de nós se possa ir conhecendo e enfrentando enquanto sentimos suporte e confiança na pessoa que está conosco.

Sem transformação não há movimento, sem movimento aparece a estagnação e, se estagna, acaba por morrer. 

O diálogo sincero e aberto é um dos principais aliados para um relacionamento imaturo poder dar frutos – o processo pode até ser doloroso mas é o verdadeiro. Como referi acima, o importante é que cada um se vá transformando através de conquistas ou no meio do conflito. As pessoas são diferentes entre si e isso faz com que nos possamos ir suportando uns aos outros mas só acontece se nos formos desafiando cada vez mais rumo à nossa autenticidade e plenitude.

A meu ver, o importante não é ser o exemplo vivo de todas as virtudes do Ser Humano Consciente mas sim cada um permitir a sua transformação constante num relacionamento com o próximo.

Os intervenientes do relacionamento devem sentir-se vivos, ativos e interessados. Isso é sinal que esse movimento é estimulante e saudável e, por si só, gera confiança entre eles. Contudo, é comum ver relacionamentos onde a confiança realmente não existe.

E sem confiança, o que existe de verdade?

É urgente podermos começar a confiar no próximo e a solução para isso é sermos nós próprios de forma a que o próximo nos conheça mais e melhor. Sem isso viveremos cada vez mais distantes do próximo e, automaticamente, de nós próprios. E assim não conseguimos cuidar de nós, nem dos animais, nem das plantas, nem dos recursos, nem de nada…

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Se existia em mim alguma dúvida, curiosidade e/ou tentação acerca da traição entre casais, dissiparam-se. Agradeço do fundo do coração a oportunidade que tive de estar perto de alguém em sofrimento que se deparou com a novidade de ser traído por outro (a quem se entregou e dedicou) e pela exposição, vulnerabilidade e sensação de responsabilidade que tenho vindo a observar serem necessárias por parte de quem cede a um capricho momentâneo.

Foi mais um exemplo perfeito para perceber o importante que é eu ser eu próprio a todo o instante e despir-me de máscaras e preconceitos. Com muito respeito pelas pessoas e situação em questão, sinto-me honrado pela oportunidade de aprendizagem que me foi dada.

E muito ficou por aprofundar.

 

Espero-te bem,

João

 

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