BhumiDesenvolvimento Pessoal e EspiritualHolismoTransforma-te

Caminhar sobre brasas, para quê?

By Novembro 28, 2019 No Comments

A primeira vez que tive a oportunidade de caminhar descalço sobre brasas com mais de 900ºC, caminhei. Fui o último dos que caminhou num grupo de 47 pessoas, e ainda bem que caminhei. Foi uma experiência tão fora da realidade que vivia que tive de ir saber mais e, no ano seguinte, encontrei uma formação de 5 dias de Facilitador de Firewalking que era essencial para mim naquela altura (sim, com 23 anos e com advogados, empresários, médicos e farmacêuticos na família o diploma da formação era um requisito mínimo para isto poder ser tema de conversa à mesa). Iam ser os 5 dias mais caros da minha vida e eu vivia o arquétipo do “Vou aprender a viver sem dinheiro”, mas tinha de os viver! E fui.

Instalaram-me sozinho num segundo andar de um bungalow feito à mão com argila, pedra e madeira, parte do tecto era em vidro e esperava-se céu limpo naquelas noites. Durante a estadia conheci pessoas bastante interessantes, foi uma troca de experiências brutal. Caminhamos de diversas formas sobre o fogo (de dia, sem ninguém à volta, à noite, a dançar e a cantar, um de 18 metros) e, na última noite, tive a minha primeira queimadura. Sim, nas 10 ou 15 vezes que tinha caminhado até esse momento nunca me tinha queimado. Algo me dizia que a queimadura era a experiência a ter na despedida. Não foi doloroso, mas intrigou-me. E como no dia seguinte viríamos embora, era algo que teria de digerir sozinho.

A queimadura foi um dos temas fortes que se falou na formação e pensava que a tinha experienciado para poder falar em primeira mão aos participantes que por mim passassem mas… não estava a conseguir extrair o verdadeiro sumo.

Com o típico “nervosismo pós-formação” preparei o termo de responsabilidade e facilitei o meu primeiro Firewalking. Segui os passos todos como tinha aprendido, falei o que eles me tinham dito para abordar, os participantes partiram tábuas com as mãos e dobraram ferros de 8mm com a garganta, aos pares, mas não me sentia satisfeito com o que tinha criado.

Ainda necessitei de repetir o processo mais 4 vezes até que percebi o significado da minha primeira queimadura. Lembro-me de estar a consultar os meus apontamentos e a estruturar os meus workshops mentalmente momentos antes de me queimar. Motivar pessoas, mostrar-lhe que os medos são irreais, incentivá-las a irem além da sua zona de conforto e aplaudir os participantes quando superavam “as provas” não era mesmo a  minha praia, mas eu tinha de levar aquele contacto com o fogo ao máximo número de pessoas.

Uns meses depois percebi: a queimadura mostrou-me a incongruência, a falha, a mentira. Pode doer ou não, pode ser explícita ou pode trazer uma mensagem escondida que se revela mais tarde. Custou-me a entender (sim, procurei respostas através do fogo e cheguei a queimar-me mais 2 vezes), custou-me a reconhecer que aquele não era o meu trabalho, custou-me ter de desbravar o terreno até criar algo com que me identificasse, algo que conseguisse traduzir aquilo em que acredito.

Por que crio espaços para as pessoas caminharem descalças sobre brasas?

Ao longo dos últimos anos fui transformando esta vivência. Este espaço é criado para que cada participante se possa trabalhar internamente com um professor chamado Fogo. Este professor é sábio, já cá está há muito mais tempo do que a raça humana e as suas funções principais são transformar, transmutar e gerar movimento.

Algumas pessoas vêm ao Firewalking procurando por motivação para terem melhores resultados ou serem a sua melhor versão, outras por não acreditarem ser possível ou por serem bastante curiosas. Eu decido continuar a criar este espaço para que as pessoas possam estar consigo próprias na sua verdade individual, encontrando direcções a tomar ou descobrindo obstáculos, meias-verdades ou mentiras que atrapalham o seu próprio processo. Aqui cada um pode recolher as suas peças: motivos, verdades, mentiras, fraquezas, crenças, potenciais ocultos.

É uma experiência bastante intensa e profunda para quem vai aberto à possibilidade de se transformar. Não é aconselhável a quem domina toda a sua vida, para quem se conhece profundamente e para quem sabe todas as escolhas e decisões a tomar.

“É tão fácil evitar-me, enganar-me ou alienar-me numa vida corrida como a que se vive hoje em dia. É fácil preencher-me momentaneamente no meio de tanta gente. É tão fácil ter uma conversa superficial com um desconhecido como de tirar a roupa e estar a 10% num encontro com alguém. O difícil é lidar comigo, aceitar a dualidade da qual sou feito. Difícil mesmo é reconhecer e transformar os meus limites, as minhas limitações, os meus dogmas, as minhas dores e aquilo que considero de erros. Assim como os meus potenciais e tudo aquilo que possa ter a conotação de bom e agradável. Isto não acontece só comigo, é colectivo.

Por que não criar um espaço onde um grupo de pessoas se encontra com o fogo para, individualmente e em silêncio, recolherem algumas das peças que lhes faltam? E por que não convidar o fogo a transmutar o velho e o obsoleto para dar lugar ao novo em cada um?

Aqui não existem técnicas para enganar a mente nem exercícios preparatórios para expandir os limites e eliminar sabotagens individuais. Este é um espaço de transformação e isso faz-se com honestidade e vulnerabilidade. Este é o segredo de uma experiência sem queimaduras.” (João Wandschneider – 2017)

O mundo seria melhor se mais pessoas caminhassem descalças no fogo?

Esta foi uma das perguntas mais curiosas que me fizeram e a resposta é óbvia: não, a Terra não necessita de pessoas que caminhem descalças em brasas. Mas esta pergunta fez-me questionar sobre o que necessita Ela…

Não estando seguro do que realmente o mundo necessita para ser (bastante) melhor, talvez arrisque dizer que necessitamos de enxergar as mentiras individuais e colectivas para que as possamos transformar e ver o que surge em seguida. Estamos numa fase que necessitamos de movimento, força, coragem, presença, ousadia, rebeldia, iniciativa, fé, não-conformismo, pureza, honestidade, vulnerabilidade, transformação, sabedoria. Sem fogo dentro de nós nada disto existe e nada muda.

Se as pessoas necessitam de caminhar em brasas para aceder a esse fogo interno? Não!

Claro que não…

…. mas por favor acedam a ele.

Leave a Reply