“Olá Índio,

O meu nome é João. Inspirado em longas conversas com o nosso irmão – agricultor, curandeiro e criador do Grupo de Dança Ooya-dmanedwa – Índio Tathxyá Fulni-ô (Povo da Beira do Rio – Município da Cidade de Águas Belas do Estado de Pernambuco – Brasil) senti uma enorme vontade de escrever.

A minha intenção não é que leias o que escrevo, isto é apenas o deixar sair o que sinto como se tivesses aqui à minha frente.

E não me importa de que continente és mas escolhi escrever para ti por veres a vida de forma tão diferente da minha, isso fascina-me! Fascinas-me! Existe algo muito profundo que me conecta à tua magia, mesmo sendo eu um subproduto do branco misturado com várias outras culturas.

Há vários anos atrás li o livro “Papalagui” que fala da forma como um dos teus via a nossa sociedade no início do século XX. Tocou-me profundamente… e ainda hoje toca! E hoje, em tom de concordância com o que li e recordando com carinho todas as lágrimas que soltei ao ler esse pequeno testemunho em forma de livro, escrevo-te para te mostrar um pouco da forma como também eu vejo a casa onde todos habitamos.

A NOSSA CASA TEMPORÁRIA

Vivo rodeado de betão e cimento com alguma vegetação cujas principais funções são tornar o espaço mais agradável e criação de sombras mas aqui as plantas são constantemente podadas por nós e de forma violenta e, essencialmente, por questões de estética. À volta de toda esta selva artificial, restam pequenos e grandes espaços onde as pessoas descansam e se divertem, se criam coisas ou se produz comida, maioritariamente, com a falsa “preciosa ajuda” de máquinas e de componentes que não encontramos na natureza: os químicos criados por humanos. Também existem locais aparentemente naturais dos quais temos orgulho em querer preservar mas que não passam de monoculturas que crescem com propósitos específicos ou de futuros locais de exploração em busca de matéria “valiosa”.

Os mosquitos e as abelhas estão a desaparecer, os pássaros também. Os animais de médio e grande porte só existem por serem um negócio, pertencem sempre a alguém. Temos escassez de fungos no solo, as águas estão quase todas contaminadas, criamos comida cujas sementes não germinam, a nossa medicina já não se encontra na natureza e bebemos água que vem numa coisa a que chamamos embalagem. É… ao longo dos anos conseguiram convencer-nos que tem mais qualidade e que é mais seguro beber essa água do que aquela que vem da terra.

Aqui aprendi que usamos panos à volta do corpo quando está frio. Quando não está, temos de os usar na mesma porque nos obrigaram a acreditar que é feio e impróprio aparecer sem eles. Ao longo de milénios deixamos crescer em nós uma vergonha gigante pelo nosso corpo e uma enorme curiosidade pelo corpo do outro. Consegues imaginar o caos que isso gerou?

Vivemos, deslocamo-nos, trabalhamos, convivemos, dançamos, rimos, choramos, comemos e cozinhamos em caixas e muitas vezes o nosso corpo habita em caixas por baixo de terra até se desintegrar. Talvez nem tu saibas que caixas falo mas é apenas um espaço limitado do qual nos sentimos ou desejamos sentir donos. Sim, tivemos de incluir o conceito de propriedade, de elevar paredes que te impedem de passar, de criar fechaduras para que apenas alguns tenham acesso ao seu interior e de criar várias caixas diferentes que demonstram o poder (ou não) que cada um tem.

Não sei se o conceito de propriedade surgiu da escassez, da falta de união entre os seres ou da desconexão que cada um tem consigo próprio, com a Mãe Terra e com o Grande Espírito, como alguns como tu assim O reconhecem. Mas isto que referi, assim como tantas outras coisas, fez-nos acreditar que o objectivo máximo da vida seria adquirir e acumular coisas, para que nunca sintamos falta. E para teres acesso às coisas, necessitas de um metal redondo e de um papel pintado. Na verdade, hoje em dia e cada vez mais, o que necessitas de ter são vários números seguidos acumulados numa caixa bastante cobiçada e impenetrável a qual chamamos de banco. E podes saber quantos números tens através dum papel ou num objecto com cores ao qual chamamos de ecrã. É muito estranho e absurdo! A isso chamamos de dinheiro.

Eu sei que tens tempo, curiosidade e disponibilidade para esta troca mas nós aqui damos muito valor ao tempo. Eu não tenho muito tempo disponível pela quantidade de coisas que quero ver a acontecer na minha vida e quem também vai ler estas palavras poderá ter menos tempo ainda para as ler. Ainda não entendi bem este conceito para te poder explicar com detalhe como o enxergamos mas nada mais é que uma forma de medir os ciclos e a degradação da matéria, com muito mais detalhe que vocês mas de uma forma menos sábia.

As pessoas aqui vivem como se não estivessem disponíveis dizendo que não têm tempo para dar atenção a algo específico. É assim há muito tempo. E sabes uma das coisas que fizemos para ganhar tempo? Criamos a máquina, lembraste de ter falado lá atrás? Com ela destruímos a natureza para tenha espaço e consiga operar em prol da nossa saúde, desenvolvimento e progresso… foi a história que nos contaram e a maior parte abraçou-a sem contestar! Sabes como nos convenceram a alinhar nisto ao longo de tantos anos? Dizem-nos que faz um trabalho que muitas pessoas juntas não conseguiriam fazer durante aquele tempo definido e que se gasta menos dinheiro do que se tivéssemos de o dar às pessoas que seriam necessárias para fazer o mesmo trabalho.

Sim, todos necessitam dinheiro para poderem estar aqui, terem acesso a comida, água, espaço, medicina, panos e coisas. E, para termos acesso a isso, precisamos de ter pelo menos uma profissão. Ter uma profissão pode significar que alguém dedica a maior parte do seu tempo a algo que verdadeiramente lhe interessa ou, na maior parte dos casos, que alguém vai fazer mais ou menos a mesma coisa muitas vezes até se fartar. E no meio de tantas outras coisas, ter uma profissão também pode significar ser doente de tanto pensar em soluções para as dificuldades que se enfrenta nessa função para obter o mesmo metal redondo, o papel pintado ou os números num ecrã.

A vida por cá ficou estranha porque aqueles que consideramos que têm capacidades desenvolvidas e activas (adultos) estão nas suas profissões a trabalhar, na maior parte das vezes, longe de onde vivem com sua família. Assim, as suas crianças aprendem a viver e são educadas por outros adultos que não os seus pais e isto acontece quase sempre, enquanto o sol está visível. Os mais sábios, aqui chamamos de idosos, ficam muitas vezes sozinhos quando deixam de ser úteis para a obtenção de dinheiro porque os adultos estão longe nas suas profissões e as crianças estão longe, com outras pessoas, a aprenderem a viver. Enfim.

Muito mais existe para te falar do que observo desta sociedade moderna. São inúmeras as coisas incríveis que por aqui aconteceram, acontecem e vão continuar a acontecer, fruto também deste desenvolvimento. Na verdade, da mesma forma que a noite equilibra o dia e o dia equilibra a noite, quanto mais desequilíbrios enxergamos mais movimentos e soluções aparecem. Ter interesse, procurar e ser consciente por aqui não é uma missão fácil, mas é possível, pelo menos “dando um jeito” como falam os nossos irmãos brasileiros. E é por sermos capazes de tal feito que estamos vivos, todos juntos, na mesma linha temporal, aqui e agora!

Quero terminar esta carta para te dizer que tenho muita curiosidade em ti e que tento fazer o que posso para não deixar morrer o que resta do Índio que habita em mim.

Por cá poucos reconhecem o índio que habita em si, mesmo existindo uma ancestralidade directa. A maioria não consegue tornar consciente o seu contacto com a Mãe e Pai que todos temos em comum: a Terra e o Céu. E isso gera o caos. E ao mesmo tempo soluções. É um ciclo que parece não ter fim mas que nos está a levar numa direcção, isso é certo. Tenho a certeza que partilhamos do mesmo sonho: a união de todas as diferenças em prol duma harmonia na terra!

Deixo-te aqui um cântico que o meu amigo Tathxyá Fulni-ô partilhou comigo, arrepiou-me dos pés à cabeça!

Um grande abraço querido Índio.

Espero-te bem,

João

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